Depois do final das eleições no Brasil, nosso país voltou seus olhos para onde o resto do mundo já olhava: as eleições nos EUA, que renovou a Câmara dos Deputados e parte do Senado, além de alguns Estados terem escolhido novos governadores e também votado algumas leis. O destaque nessas leis foi a derrota da proposta de legalizar a maconha no estado da Califórnia.
Mas o que mais chamou a atenção da imprensa brasileira e de boa parte do mundo foi a ascensão de políticos conservadores do movimento intitulado Tea Party. E chama a atenção a ignorância (para não dizer má fé) de alguns analistas políticos e jornalistas brasileiros. Mas essas duras críticas feitas ao Tea Party tanto por quem apoiou Serra quanto por quem apoiou Dilma, serviu para reforçar a tese de que não existe direita no Brasil.
Basicamente, as propostas do Tea Party consistem na redução de impostos e dos gastos públicos e a não aprovação de qualquer lei que fira a Constituição Americana. É engraçado que um movimento desse seja demonizado pelas mesmas pessoas que aqui no Brasil também querem redução de impostos e cumprimento da Constituição Federal.
Onde estaria então a diferença? Nos gastos. Aqui no Brasil, as pessoas acham que governo bom é aquele que torra seu dinheiro e mostra grandes obras (ainda que sejam inúteis e/ou superfaturadas). Nos EUA, as pessoas prezam pela liberdade de escolha e a fiscalização dos gastos públicos. Não é à toa que a maioria dos americanos foi contra a reforma no sistema de saúde, que garante uma cobertura praticamente universal. Agora, imaginem aqui no Brasil se algum político defendesse o fim do SUS? O horror dos horrores.
O “tea partiers” são conservadores e se orgulham disso. Mais um motivo para haver preconceito por parte do senso comum brasileiro. Mas ninguém leva em consideração o fato de que ser um conservador nos EUA tem uma definição diferente de ser conservador no Brasil. Enquanto aqui quem é tachado de conservador é aquele que defende nossa histórica simbiose entre o público e o privado e a manutenção das velhas elites no poder. Já nos EUA, ser conservador é conservar os valores nos quais foi construída a nação mais poderosa do mundo, sendo o principal valor, a liberdade.
Por isso, algumas afirmações feitas por aqui sem nenhum fundamento, confundem os brasileiros. O Tea Party é acusado de ser racista e xenófobo, apesar terem eleito um governador negro na Carolina do Sul (que fica numa região extremamente racista), e um senador filho de cubanos na Flórida. À propósito, o senador em questão é Marco Rubio, que está cotado para fazer parte da chapa presidencial em 2012. Algumas proposições de tea partiers, como a de que alguns deles defendem o ensino do criacionismo nas escolas, foram enfatizadas pela mídia brasileira, mas esqueceram de dizer as propostas libertárias de desregulamentação por parte do governo federal e até mesmo a legalização da educação domiciliar, defendida por boa parte dos membros do Tea Party.
Alguns também falam do medo da política externa prejudicar os latino-americanos e voltar a política de intervenção feita pelos republicanos, sendo que grande parte do Tea Party tem aversão a essas políticas. Tanto que alguns deles são favoráveis até mesmo à saída dos EUA de organismos internacionais (entre eles, a ONU). Não é a toa que um provável candidato nas primárias republicanas em 2012, Ron Paul (que já foi citado neste blog e é apoiado pela ala mais libertária do Tea Party), que defende não só a saída dos EUA da ONU, mas também da OTAN, da OMC e do FMI, diz que os outros países devem copiar o modelo americano pelo exemplo, e não pela força, e que as relações entre países devem se dar de acordo com a vontade dos indivíduos e não por vontade do Estado. Tanto que defende retirada imediata das tropas americanas fora do país e restabelecimento das transações e vôos comerciais com Cuba e Irã.
Tudo isso mostra o equívoco do “Efeito Regina Duarte” que nossos “intelectuais” e mídia vem propagando em relação ao novo quadro político americano. É extremamente importante termos cuidado com a avaliação simplista que a imprensa brasileira, contaminada pelo estatismo do pensamento vigente no Brasil, que acha que esse é um movimento de lunáticos. Só vamos saber, esperando ver a ação deles agora no Congresso, onde eles conquistaram um número considerável de cadeiras.

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